quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Mamãe, Papai Noel existe?



Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras fatigadas de informar.
Dou mais respeito às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas.
Dou respeito às coisas desimportantes e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim um atraso de nascença.
Eu fui aparelhado para gostar de passarinhos...
 (Manoel de Barros (19/12/1916 – 13/11/2014)

Recebi por e-mail o poema que uso como epígrafe, do quase centenário poeta mato-grossense Manoel de Barros, que virou passarinho e foi voar pelas alamedas do céu na semana passada. Mandei-o a um monte altense que aos poucos tem se tornado querido ao meu coração, e ele me disse que o tinha lido na véspera, pois o texto tinha circulado nas redes sociais. Poderia ter escolhido outro, entre a riqueza literária que o simpático poeta nos legou, mas, optei por este, pois, quem o escolheu para divulgar na rede, escolheu muito bem, se é que é possível fazer uma escolha em obra tão vasta e tão rica. Mas, afinal, quem é Manoel de Barros? Alguém de quem muita gente, como o meu amigo, só ouviu falar no dia da sua morte? Certamente. Ele é um poeta conhecido de poucos, mas, quem tem o privilégio de conhecê-lo se apaixona irremissivelmente.

Tive a graça de descobri-lo há alguns anos, ainda na faculdade e estudá-lo por um semestre, mas, para abarcar a grandeza e a singeleza de sua obra, seria preciso, no mínimo, uma vida inteira – e uma vida quase centenária, como a dele. Um poeta que escreveu três maravilhosos livros autobiográficos com o título de “Memórias inventadas”, separando a sua vida em três fases: Primeira Infância, Segunda Infância e Terceira Infância! Mais não há a falar sobre ele, correria o risco de tornar as minhas palavras “fatigadas de informar”. Só posso indicar que o leiam e que assistam ao fenomenal documentário “Só dez por cento é mentira” (disponível na Net), praticamente a única entrevista que ele concedeu em toda a sua vida e isso, como confessa, por dó do repórter que ficou meses na sua cidade, tentando fazer a matéria.

Esta semana, além da ternura reavivada pela lembrança de meu poeta querido, outra coisa muito me comoveu. Uma colega de trabalho que tem um filho pequeno estava chateada porque o garotinho chegou em casa indignado porque um coleguinha na escola tinha contado pra ele que o Papai Noel não existe, que são os pais quem compram os presentes. É comum os filhos pequenos verem os pais como pessoas infalíveis, conhecedores de tudo e detentores da verdade absoluta. Uma certeza que vai se diluindo com o tempo, quando a falibilidade dos pais vai se tornando evidente nas pequenas coisas do dia a dia.  E a primeira “mentira” que os filhos descobrem nos pais é sobre o Papai Noel, no qual acreditam piamente nos primeiros anos de sua vida.

Mas, pode haver coisa mais gostosa, lembrança mais agradável e feliz do que ajudar a mãe a montar a árvore de Natal, deixar os sapatinhos sob ela na véspera do dia 25 e encontrar ali os presentes deixados pelo bom velhinho? Mas, sempre há um espiritozinho de porco que descobre o “embuste” e faz questão de espalhar a notícia aos coleguinhas mais inocentes, causando neles uma enorme decepção. E então, como resolver o impasse? Insistir na fábula ou admitir ao filho que tudo não passa de uma invenção? Eu até dividiria a infância entre antes e depois da descoberta sobre o Papai Noel, quase que um rito de passagem, quando a criança adentra uma nova etapa de sua vida e inaugura um novo modo de ver as coisas e até mesmo de considerar tudo o que os seus pais dizem. Claro que, com a descoberta sobre o Papai Noel, logo vem também a descoberta sobre o coelhinho da Páscoa e que as marcas de patinhas deixadas pela casa foram feitas com farinha e três dedinho das patinhas dos próprios pais.

Hoje há pais mais racionais que preferem jogar de vez os filhos no gélido contexto da realidade e nem alimentar essa fantasia: Natal é comércio e pronto! Mas, graças a Deus, a maioria dos pais ainda é alimentada por suas boas memórias e não desmitifica de vez a crença no Papai Noel com suas renas e seu saco de presentes. Milhões de crianças no mundo todo ainda escrevem cartinhas para o Papai Noel e as colocam nos Correios. Logo isso deve acabar de vez, pois nossas crianças estão cada vez mais informatizadas. Creio que seja bom o Papai Noel comprar um I-Phone, se ainda não o tem, porque as cartinhas continuarão chegando, só que por e-mail, Facebook, WhatsApp...

Lembro-me bem quando chegou a minha vez de passar por essa saia justa. Meu filho, que acreditava absoluta e cegamente em mim, que não se conformava quando a uma pergunta sua eu respondia “Não sei, filho!”, pois estava certo de que eu sabia todas as coisas, chegou da rua esbaforido e me disse: “Mamãe, o Carlinhos falou que o Papai Noel não existe, que é o pai e a mãe da gente que compra os presentes e põe na árvore!” Ao fundo eu ouvi aquela música da trilha de Guerra nas Estrelas e pensei: “Meu Deus, e agora? Se digo que existe, para prolongar a sua inocência, passarei por mentirosa, se digo que não existe, passarei por mentirosa do mesmo jeito, pois até agora afirmei que existia!”. Então, a criatividade que só a ternura nos dá me apontou uma saída magistral e eu falei: “Filhinho, fecha os olhos, respira fundo, bem lá dentro do seu coração, o que você acha, ele existe ou não existe?”. Ele fez exatamente como indiquei, suspirou e me respondeu: “Eu acho que ele existe!”. Também suspirei aliviada e lhe disse: “Então ele existe e ninguém vai tirar isso de você!”.

Graças a Deus eu tive mais sorte que meu filho e que muitas outras crianças, pois nenhum coleguinha estraga-prazeres veio me dizer que Papai Noel não existia e nem tão menos minha mãe me falou. Com certeza, a Manoel de Barros também não foi revelada tal atrocidade, por isso ele morreu acreditando e eu vivo a acreditar: Papai Noel existe, sim! E tanto creio que na minha casa até tenho uma lareira e uma simpática chaminé por onde ele pode entrar e renovar o meu estoque de sonhos a cada Natal a fim de que eu possa continuar, como Manoel, com meu “atraso de nascença e de crescença, aparelhada para gostar de passarinhos”.



terça-feira, 25 de novembro de 2014

TERRA, PLANETA ÁGUA




“Águas que movem moinhos são as mesmas águas que encharcam o chão e sempre voltam humildes pro fundo da terra.” (Planeta Água – Guilherme Arantes)


            Nós, de meia-idade, bem nos lembramos das magníficas canções eternizadas nos grandes festivais da Música Popular Brasileira. Em 1981, numa das últimas versões desses festivais, o MPB Shell, quando a prática já agonizava, houve muita polêmica em torno da vitória da pouco conhecida cantora Lucinha Lins com “Purpurina”, uma música mediana, que logo caiu no esquecimento. A torcida era unânime para a música “Planeta Água”, do cantor e compositor Guilherme Arantes.

            Sem dúvida, o resultado foi injusto, prova disso é que a música do Guilherme Arantes se popularizou entre a juventude que a cantava muito durante e depois do festival, música lembrada até hoje e que até hoje causa emoção, pois é linda, tanto de letra como de melodia, ao passo que, pouco tempo depois, ninguém mais se lembrava da “Purpurina” da então esposa do famoso Ivan Lins.

            A falta d’água pela qual estamos passando me fez lembrar dessa música e pensar na água que já não move tantos moinhos e nem encharca tanto o chão, embora continue humilde em seu caminho de volta para o fundo da terra. Lembro-me de ter ouvido de um professor, na minha adolescência, provavelmente o Chiquinho Pimentel, que a nossa e as futuras gerações sofreriam pela falta de água, o que soou um tanto absurdo na época, mas, hoje é uma constatação. Vários filmes trataram dessa temática que saiu das telas de cinema e veio habitar a nossa realidade.

            Eu moro na zona rural, numa região montanhosa, e uso água de poço, recolhendo a água fresca e pura que um dia voltou humilde para o fundo da terra, só que essa água praticamente secou. Houve dias em que precisei optar entre regar a horta ou tomar banho. Mandei baixar a bomba do poço e a água começou a subir suja de lama, e eu tive de apelar para comprar água ou buscá-la em casa de conhecidos na cidade ou em bairros vizinhos.

            Mandei limpar o poço (aliás, o ofício de poceiro, que muita gente nem sabe que existe, está em alta por aqui, precisei ficar numa fila de espera para ser atendida!) e a água da mina voltou a brotar. Ontem subi na laje para limpar a caixa d’água, tirar a lama que se acumulou no fundo. Não sei explicar a alegria e a emoção que senti quando a bomba foi ligada e comecei a ver a água novamente cristalina caindo dentro da caixa. Parece bobagem, mas, confesso que chorei e rezei, ali mesmo, em cima da laje.

            Nesses últimos dias, cheguei a lavar roupa com água da chuva. Choveu apenas um dia, e nem foi uma chuva abundante, mas, todos os meus baldes, bacias e panelas foram para o quintal para recolher água e essa água foi para a máquina de lavar e, depois de usada, foi reaproveitada nas descargas dos banheiros. Uma situação que jamais imaginei viver. Meu professor tinha razão. Aliás, professores têm razão em muitas coisas, pena que hoje são desprezados, ignorados e até hostilizados, tratados do mesmo jeito como tratamos a água, sem dar o devido valor.

            Esta seca, talvez a maior já vivida no estado de São Paulo, nos leva a refletir sobre muitas coisas, não apenas sobre o uso correto da água e outras atitudes responsáveis a fim de evitar situações que levem à falta de chuvas, como a poluição, o desmatamento, as queimadas. Quando se fala em ecologia, tem-se sempre a impressão que é algo muito distante de nós, responsabilidade dos “grandes”, mas, quando falta água até para beber, quando o calor chega a 41 graus, o sol nos fustiga, a seca nos adoece, então percebemos que a responsabilidade é de cada um de nós, com cada gotinha de água, com cada pequeno gesto de respeito à natureza.

            Infelizmente, da mesma forma como tratamos a água, desperdiçando por achar que nunca vai faltar, que isso é conversa de político e ecologista radical, dessa mesma forma, com a mesma displicência e, por que não?, arrogância, tratamos outros mananciais que nos abastecem. Dessa mesma forma os jovens tratam hoje a educação, dentro e fora de casa, da mesma forma tratamos as pessoas que nos amam, sobretudo nossos familiares, achando que o amor, assim como a água, nunca se desgasta, nunca vai acabar.

Se considerarmos que dois terços do nosso planeta é água é até estranho que ele se chame Terra, pois é basicamente um “planeta água”, como diz o refrão da música. Mas, até mesmo num planeta água, podemos ficar sem poder tomar banho, lavar nossas roupas e até morrermos de sede. Assim também, mesmo cercados do mais abundante amor, se abusamos, abusamos, abusamos, um dia podemos morrer de sede emocional, pois toda fonte, se negligenciada, tende a secar.


segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Assim é se lhe parece




            Quantas vezes nos desgastamos, sofremos, brigamos tentando provar nossos pontos de vista? Mesmo quando eles estão corretos, de que adianta nos digladiarmos com outras pessoas que têm tanta certeza de estarem certas quanto nós? E, se um não cede, vidas acabam arruinadas. Todos reconhecemos a importância de ceder, só que, geralmente, queremos que o outro ceda, que o outro perceba o seu erro. Falo isso por experiência própria. Por muito tempo nutri a teimosia. Não aquela teimosia gratuita só para atazanar as pessoas, mas uma necessidade quase obsessiva de, estando certa sobre algo, ter de provar o meu ponto de vista.

Antes de teimar, eu sempre me certificava de estar mesmo com a razão e não entrava numa discussão caso não estivesse. Ah, mas se estivesse, perdia sono precioso tentando encontrar os meios mais eficazes para convencer a outra parte. Não teimava o tempo todo, mas não podia evitar fazê-lo quando as circunstâncias confirmavam a minha convicção e isso era uma coisa que me fazia sofrer. A gente sempre encontra gente mais teimosa ainda e, pior, algumas pessoas que não se curvam nem diante das evidências e não dão o braço a torcer mesmo quando percebem que estão equivocadas, o que é muito irritante e pode gerar brigas sérias, desgastes e até rompimentos.

No entanto, o tempo ensina. Ainda sou uma pessoa metódica, porém, hoje evito teimar ou provar qualquer coisa, mesmo quando tenho absoluta certeza. Fui aprendendo a ceder a vez, a passar a bola, a deixar pra lá. Nem sempre é fácil, mas, entre ter razão e ser feliz, optei por ser feliz, o que traz um grande alívio. No começo era um exercício diário e confesso que houve vezes que gritei pra dentro, saí de campo pra respirar fundo ou até chorar no banheiro, mas, com a prática, isso se tornou muito tranquilo e hoje posso até dizer que é divertido. Creio que essa seja a principal característica que, somada aos cabelos brancos que resolvi libertar da tintura, me lembra que estou passando da metade da curva da estrada.  

            Eu comecei a trabalhar como empregada doméstica aos dez anos de idade, algo que, na época, eu nem achava muito bom, pois estudava de manhã e trabalhava à tarde. A casa era grande e a patroa exigente; eu não sabia fazer muitas coisas e levava algumas broncas. Depois, tinha de fazer a lição de casa à noite, caindo de sono. Tinha também aquela parte chata de ter de comer fora da casa, quase sempre as sobras dos dias anteriores, raramente a comida feita no dia. Apesar dessas coisinhas, no geral, a experiência, que hoje seria considerada exploração do trabalho infantil, contribuiu para o meu amadurecimento como pessoa.

Um dia, bem mais tarde, indo pegar o ônibus para Guariba, onde trabalhava, me encontrei com a vizinha de uma ex-patroa e ela me perguntou na casa de quem eu estava trabalhando. Respondi que estava trabalhando na Nossa Caixa e ela quis saber quem tinha arrumado o emprego para mim. Expliquei que era concursada, e ela disse, com aparente sinceridade: “Que bom, né, bem? Não faz mal que é na faxina.”. Eu só tinha vinte anos, mas já tinha iniciado meu treinamento contra a teimosia, então resolvi não contrariá-la e respondi: “Bom mesmo!”.

Percebi que não adiantava explicar que era escriturária, que passara num concurso dificílimo. Que diferença faria? Para aquela senhora, eu já tinha um estigma. Tomei o ônibus com o coração aliviado, refletindo que o que as pessoas pensam umas das outras dificilmente corresponde à realidade. Não me tornei faxineira do banco pelo fato dela pensar que eu o fosse e nem precisei parecer arrogante tentando convencê-la de uma coisa na qual ela nem acreditaria.

A minha última patroa me ensinou uma importante lição. Um dia eu estava varrendo umas folhas e estava ventando. As folhas voltavam para o lugar de onde eu as tinha varrido e eu continuava, tentando chegar com elas ao fundo do quintal, onde estava o latão de lixo. Então ela me disse: “Izilda, não brigue com as folhas, varra na direção do vento. Depois você leva o latão lá na frente e recolhe tudo.” Assim fiz, e não é que o vento me ajudou? E assim procuro continuar fazendo pela vida afora. Para que brigar com o vento? Para que nos estressarmos tentando provar as coisas? Quando estamos certos – ou errados – sobre algo, o tempo põe as coisas no lugar.


É claro, perdi algumas oportunidades por querer ver sempre tudo muito correto, ceder pouco, ser exigente e pouco maleável. Hoje, sem apelar para o relativismo e sem precisar abrir mão de meus valores, eu consigo deixar muitas coisas pra lá e, com tranquilidade, dizer, dentro do meu coração, sem ofender a ninguém: “Assim é se lhe parece!”. Afinal, teimar pra quê?

domingo, 23 de novembro de 2014

A deficiência oculta





Há algum tempo uma amiga minha namorou um homem cego, ou deficiente visual, como é mais adequado dizer em tempos de colocações politicamente corretas. No começo, teve alguma dificuldade sobre como se portar com ele. Na primeira vez que almoçaram num restaurante, por exemplo, ela ficou em dúvida sobre oferecer-se para servi-lo ou para cortar o seu bife. Não queria parecer negligente, mas também não pretendia ser pegajosa e super protetora, temendo que ele se sentisse mal. Foi-se adaptando e em pouco tempo agia com ele com a maior naturalidade e, como ela é uma pessoa detalhista e minuciosa, passou a se constituir um prazer para ambos a maneira como ela descrevia tudo ao redor quando passeavam. Iam a lugares que normalmente os casais de namorados vão: restaurantes, parques, teatro e ela era os olhos dele, descrevendo as minúcias de tudo o que via.

Porém, a minha amiga também possui uma deficiência, mas uma deficiência oculta. A deficiência dela não podia ser vista por seu namorado, não por ele ser cego, mas por ser uma deficiência sutil, apesar de avassaladora. A minha amiga sofre de depressão. A primeira crise que teve desde que se conheceram aconteceu no departamento de Recursos Humanos da empresa em que ela trabalha. Estava passando por uma avaliação médica de rotina, quando a sua inimiga oculta se evidenciou e ela se viu numa desesperada crise de choro, sentindo os dedos gelados da morte tocarem seu coração e desequilibrarem seu intelecto.

Os profissionais que a atendiam, por causa de uma licença longa após uma cirurgia, que nada tinha a ver com problemas emocionais, disseram que só a deixariam sair dali acompanhada, e direto para um pronto-socorro psiquiátrico. Ela ficou mais desesperada ainda com isso, sentindo-se péssima e sem chão e não sabia a quem recorrer. Para complicar, o seu celular ficou sem bateria e os únicos telefones que ela sabia de cor eram o da irmã, que não estava em casa, e o do seu doce amado. A psicóloga ligou para ele que, um pouco assustado, tomou um táxi e foi até o local e depois a acompanhou até um médico, mas deixou-a lá, sozinha, alegando que precisava voltar ao trabalho.

Ela compreendeu e até admirou a responsabilidade dele com o seu trabalho. Passou pelo médico, comprou a medicação prescrita, iniciou uma terapia e tocou a vida, só que um detalhe a decepcionou muito. O namorado começou a mudar com ela, foi ficando frio, distante, reticente, até que terminou o namoro alegando que não conseguia conviver com aquilo, que para ele era muito assustador estar perto de uma pessoa que não tinha controle das próprias emoções. Moral da história: a deficiência física, a deficiência visível é mais fácil de aceitar, muito mais fácil do que a deficiência que se oculta na alma.

Não é possível culpar o rapaz e nem acharmos que ele deveria retribuir a ela todo o carinho, cuidado e compreensão que ela teve com a deficiência dele. A maioria das pessoas age assim com pessoas deprimidas que, até há não muito tempo atrás, eram consideradas loucas, uma palavra muito mais dura. Mas, independente da denominação, o mal é o mesmo. Chamar um cego de deficiente visual não faz com que ele enxergue, da mesma forma, chamar de depressiva uma pessoa que tem um distúrbio emocional não faz com que ela deixe de ser o que é e nem diminui o preconceito que ainda existe com aqueles que não conseguem equilibrar as emoções porque têm uma deficiência neuronal.

É comum oferecermos ajuda a um cego para atravessar a rua, aprendermos a falar em Libras para nos comunicarmos com pessoas surdas, empurrarmos uma cadeira de rodas, mas, aos depressivos nós dizemos: “Você precisa ser forte, você precisa ter força de vontade, ter mais fé, rezar mais.” E isso só faz com que as pessoas depressivas se sintam pior, pois, além da sensação de carregarem o inferno dentro de si, ainda se sentem culpadas por isso. Ninguém diz a um diabético, a alguém que tem pressão alta, insuficiência renal ou está com o pé quebrado para ter mais fé e mais força de vontade.


Ainda somos ignorantes sobre muitas coisas, mas, a ciência e a medicina já evoluíram muito no conhecimento da doença da alma, tanto que já se eliminou do vocabulário médico o termo loucura, e também já não se trata as pessoas depressivas como histéricas ou possuídas pelo demônio. É, sim, uma deficiência oculta e as pessoas que a possuem lutam muito para ocultá-la ainda mais. Mas, apesar de as causas e a cura para a depressão e outros distúrbios da mesma ordem permanecerem desconhecidos, o amor, o carinho e o respeito por quem possui esses distúrbios ainda é o melhor caminho para que todos convivamos bem, com afetividade e esperança.

sábado, 22 de novembro de 2014

O cliente tem sempre razão?


            Quando mudamos de Monte Alto e ficamos bastante tempo sem visitar a cidade, é normal que, aí voltando, reencontremos pessoas que fizeram parte do nosso passado e nem sempre as reconheçamos, um está mais gordo, outro está de cabelos brancos, outro sem cabelos. Da mesma forma, muitos se admiram de como mudamos desde os tempos idos. Outra característica comum aos filhos visitantes é se inteirarem das “novidades”: quem casou, quem separou, quem morreu, quem voltou.

            Numa de minhas visitas, ouvi falar bastante, por pessoas diferentes, de um rapaz da minha época. Não chegamos a ser amigos, mas me lembro bem dele por ter trabalhado muitos anos como babá em uma casa vizinha à sua. Mas, por que esse moço, já não tão moço, foi motivo de comentários por diversos conhecidos meus? Muito simples, ele foi muito bem sucedido nos negócios e enriqueceu. Houve até quem dissesse que agora ele é “dono da metade da cidade”, obviamente um exagero, mas que demonstra o quão bem sucedido e próspero ele é, o que é sempre motivo de alegria, pois embora o dinheiro não seja a coisa mais importante da vida, é muito melhor ouvirmos dizer que alguém enriqueceu do que que foi à falência e caiu na miséria.

            Semana passada esse próspero homem esteve em um bar da cidade que costuma frequentar. Talvez tenha exagerado um pouco na bebida e, na hora de pagar, criou uma situação muito desagradável, acusando a dona do bar de estar roubando na conta.  Bem, eu não presenciei a situação, mas conheço os donos do bar o suficiente para saber que eles não roubariam na conta de ninguém, mesmo porque o bar é uma espécie de ponto de encontro de amigos, que são também, mais que clientes, amigos deles. Bem, todos têm direito de questionar as contas que lhe são apresentadas, mas, o que me chocou ao tomar conhecimento do episódio foi a forma nada delicada como isso foi feito.

A dona do bar, que ali estava desde cedo, limpando, arrumando, cozinhando e atendendo gentilmente os clientes, como sempre faz, foi chamada de ladra, incompetente e outros qualificativos que não convém repetir. Tentou argumentar e mostrar ao exaltado cliente a conta, onde estava anotado tudo o que ele consumiu e   ofereceu aos amigos. O triste episódio acabou com um homem colérico gritando e chutando o vidro do balcão do bar e quebrando-o, o que assustou os presentes, que tentaram acalmar os ânimos. Ele não se acalmou e saiu do local esbravejando impropérios e dizendo que estava certo, que estava com a razão.

            A moça, minha amiga, ficou arrasada com o acontecido, até adoeceu no final de semana, de tristeza, de decepção, de frustração por ter um trabalho que exige tanto dela e acaba por render episódios tão desagradáveis como esse. O marido, como bom comerciante, tentou convencê-la de que precisava superar o fato, pois isso faz parte do comércio, afinal, “o cliente tem sempre razão”.
            Não, o cliente não tem razão quando se acha no direito de gritar, ofender e maltratar a pessoa que o serve, quando resolve dar coice, literalmente, metendo o pé no vidro e arrebentando um equipamento essencial para o funcionamento do estabelecimento, algo que custou muito suor para ser adquirido. Por mais rica, respeitada e importante que seja, criatura nenhuma tem razão quando se comporta de maneira tão primitiva, grosseira e violenta.

            Trabalhar em um estabelecimento comercial leva as pessoas a terem de engolir muitos sapos; sendo esse estabelecimento um bar, mais sapos ainda e sapos cheirando a álcool, desequilíbrio e frustração. Talvez por isso meu amigo tenha preferido não criar caso, baixar a cabeça, enfiar a mão no bolso, bem menos próspero do que o bolso de quem causou o prejuízo, e mandar consertar o balcão, sem o qual o bar não pode funcionar.

Dói meu coração tomar conhecimento desse tipo de episódio e, assim, se esvaiu a alegria que senti ao saber do sucesso deste meu conterrâneo, cujo belo rosto juvenil ainda é vivo na minha memória, bem como a imagem do pai dele, um homem de muito brio, provavelmente um dos homens mais admiráveis que habitou nossa cidade. Não quero julgar esse moço que, se reencontrar na rua hoje provavelmente nem reconhecerei, mas lamento imensamente esse comportamento tão estúpido, da parte dele ou de qualquer um que faça coisas desse tipo. Condoí-me muito com a situação da minha amiga, que ficou infeliz com o fato, mas me condoí ainda mais por ele, que, para fazer tal coisa, deve ser uma pessoa muito infeliz.

            É certo que a moça que foi ofendida, depois de um dia exaustivo de trabalho, preferia estar em sua casa descansando, vendo TV, conversando com o filho, como talvez estivesse fazendo a esposa do homem que a agrediu, se é que ele é casado, o que eu não sei. Mas se ela estava ali, ao lado do seu marido, atrás de um balcão de bar, é porque esse é o ganha-pão de sua família, porque ela é uma batalhadora, uma admirável companheira de seu esposo, porque não é qualquer um que encara esse tipo de trabalho.

            O mínimo que esse senhor deveria fazer, depois de passado o porre e a ressaca, era voltar ao local e ao menos pagar o prejuízo material que causou, porque os danos morais e emocionais, esses, infelizmente o dinheiro dele não pode pagar, mas, talvez um bom pedido de desculpas ao menos alivie.


sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Quando tudo não é o bastante


            Não é incomum passarmos por crises recheadas de desespero, tristeza, sensação de fracasso, de que seguimos pelo caminho errado, que fizemos as escolhas erradas e sofremos as consequências. Isso é plenamente aceitável e compreensível quando estamos com problemas financeiros, não conseguimos saldar as nossas dívidas e elas nos consomem, nos tiram o sono, ou quando temos dificuldades com nossos filhos, desgastes em nossos relacionamentos, insatisfação com o trabalho, problemas de saúde.

            Mas, e quando nenhuma dessas hipóteses é verdadeira? Quando tudo vai bem com as nossas finanças, quando temos tudo o que poderíamos almejar materialmente, filhos saudáveis e bem encaminhados, quando somos realizados profissionalmente, temos histórias de amor bem sucedidas e saúde perfeita e, ainda assim, não somos felizes? O que acontece? O que nos causa a sensação de impotência e até mesmo de fracasso. Será o peso da idade? O medo da morte?

            Estou relendo um livro do rabino americano Harold Kushner, que tem o mesmo título que dei a esta matéria. Ele escreve com base no Eclesiastes, o livro mais pessimista da Bíblia, cujo autor se apresenta como um homem muito rico, com amores bem vividos, filhos criados, realizações sem medida e detentor de muita sabedoria –  provavelmente o Rei Salomão – e, no entanto,  um homem infeliz e atormentado, que diz que o sol nasce para todos e que por conta disso tanto faz ser bom ou ruim, justo ou injusto, honesto ou mau caráter, o fim será o mesmo para todos e conclui que na vida tudo é vaidade e o que aproveita o homem é trabalhar, comer do fruto do seu trabalho, repousar após a fadiga e procurar fazer a vontade de Deus.

            Kushner esmiúça o pensamento de Salomão (ou seja quem for o autor do Eclesiastes) e mostra que a nossa insatisfação, frustração e ausência de alegria se dá pela ausência de significado. Não faz diferença ser culto ou ignorante, rico ou pobre, saudável ou doente, feliz ou infeliz, religioso ou ateu, chega uma hora que, inevitavelmente, somos forçados a nos perguntar o que estamos fazendo aqui, porque existimos e se a nossa passagem mudará alguma coisa na face da terra ou se, após a nossa partida, seremos apenas uma página virada e rapidamente esquecida e substituída.

Costumamos evitar ao máximo essas perguntas. Para que nossa alma se mantenha calada e não nos incomode com questões desse tipo, costumamos anestesiá-la com sucessos, posses, vitórias , conquistas e conceitos impostos. Mas, cedo ou tarde, ela se rebelará e gritará as suas perguntas porque sempre chega um momento em que tudo não é o bastante. Quiçá isso aconteça cedo, quanto antes melhor, pois, por pior que sejam os efeitos dessa crise existencial, depois dela nos sentimos vivos e podemos buscar um real significado para nossas vidas. Este é o privilégio de não morrer jovem: ter tempo para nos fazermos essas perguntas. As respostas... bem, as respostas o homem vem procurando desde os primórdios.

            Hoje, quando escrevo este artigo, a Igreja comemora o dia de Santo Agostinho. Sou uma grande admiradora deste filósofo, teólogo e grande homem. Agostinho teve uma das almas mais inquietas de que se tem registro e deu um bocado de trabalho para a sua mãe, que rezou por mais de 30 anos pela sua conversão. Ele fez de tudo um pouco: foi filósofo, pesquisador, professor, astrólogo, teve amantes e até um filho sem se casar. Tinha uma grande sede, uma busca desesperada pelo sentido da vida, que só se refreou quando ele se encontrou com Deus.

Ele não foi um simples beato que viveu desde o berço envolto numa aura de santidade. Ele foi um homem comum, com uma boa dose de devassidão e desassossego e, mesmo depois de convertido e de ocupar um alto posto dentro da hierarquia da Igreja, nunca negou o seu passado e os seus equívocos. Pelo contrário, fez do aprendizado com seus muitos desvios a via para a santidade. Por admirá-lo tanto, encerro este texto com uma das mais belas orações que ele proferiu, lembrando que, ainda que tudo seja vaidade, o propósito de estarmos aqui é muito especial e sagrado e só teremos paz verdadeira quando entendermos isto. Podemos não ter as respostas, mas, não vale a pena evitar, a todo custo, as perguntas.


            “Tarde te amei, ó beleza tão antiga e tão nova! Tarde demais eu te amei! Eis que habitavas dentro de mim e eu te procurava do lado de fora! Eu, disforme, lançava-me sobre as belas formas das tuas criaturas. Estavas comigo, mas eu não estava contigo. Retinham-me longe de ti as tuas criaturas, que não existiriam se em ti não existissem. Tu me chamaste e teu grito rompeu a minha surdez. Fulguraste e brilhaste e tua luz afugentou a minha cegueira. Espargiste tua fragrância e, respirando-a, suspirei por ti. Eu te saboreei, e agora tenho fome e sede de ti. Tu me tocaste, e agora estou ardendo no desejo de tua paz.”

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

O preço da liberdade



“Ainda que feita de ouro, uma gaiola continuará sendo uma prisão.”


Talvez o maior desafio do ser humano seja manter-se livre. A frase com a qual abro o texto, a ouvi de um atendente de uma financeira com o qual conversava sobre as várias prisões a que o homem se submete enquanto ele avaliava os meus documentos para um empréstimo emergencial a juros escorchantes, algo que, sem dúvida, diminui liberdade de todos que se submetem a esse tipo de enrascada financeira.

            Gostei da frase e, a partir dela, meditei longamente sobre os diferentes tipos de aprisionamentos que cerceiam a nossa liberdade. Quando se fala em prisão, logo pensamos naqueles presídios horrorosos, sujos e lotados, onde as pessoas se amontoam, se sujeitam e cometem todo tipo de violência e, se não entraram ali bandidos, bandidos dali sairão. Mas, há muitos outros tipos de prisão, até mesmo para criminosos. Há as que vemos em filmes americanos: um ou dois prisioneiros por cela, camas limpas, boa comida, travas eletrônicas, uniformes decentes, esportes, bibliotecas, o que pode até oferecer mais conforto para os infratores, mas, não os torna menos criminosos e nem os deixa mais livres do que aqueles que lotam as prisões do terceiro mundo.

            Porém, não são apenas as pessoas que infringem a lei que são aprisionadas, aliás, a maioria nem é. Há as prisões cotidianas, aqui fora; prisões que, de tão sofisticadas, nem parecem prisões. Podem ser casas luxuosas, relacionamentos de fachada, medos, temores, angústias, síndrome do pânico, deficiências ou acidentes que prendem as pessoas em corpos que não podem andar, controlar bexigas e esfíncteres, interagir, atuar, obedecer a mente.

            O pior tipo de prisão, no entanto, é a prisão ideológica, pois quem está protegido por suas grades douradas sequer se dá conta de que está preso e, pior, num tipo de prisão do qual é quase impossível sair, uma prisão onde dificilmente acontecem fugas e rebeliões. As ideologias podem ser políticas, utópicas, consumistas, esportivas, religiosas. São aquelas certezas que carregamos a vida inteira, convictos de que são nossas e um dia acordamos – ou não – e percebemos que elas são de outros, que elas nos foram impostas, coladas em nossas mentes como se fossem nossas, e isso, não raro, começa a acontecer ainda na infância.

Muito poucos são os seres humanos que conseguem manter-se livres e independentes, normalmente esses são os que têm as ideologias e os sistemas de valores copiados, adaptados, até corrompidos e difundidos para outras mentes, às vezes apenas para algumas, às vezes para milhares, milhões e até bilhões de pessoas. São implantes mentais que parecem tão naturais que somos capazes de matar e morrer para defendê-los. Homens que não são livres não conseguem dizer não, sobretudo ao próprio sistema que os escraviza.

Nós mulheres, podemos ficar presas a relacionamentos que nos oprimem, sufocam, violentam, mas, muitas de nós, acreditando-se livres, ainda são presas ao mito do sexo frágil, temerosas em fazer as próprias escolhas, tomar as próprias decisões, cuidar da própria vida, e esse aprisionamento nem vem de homens ou de ideologias machistas, mas, dos ditames da moda, das revistas e programas de TV que, tratem do assunto que tratarem, sempre acabam trazendo matérias sobre exercícios e dietas para perder peso e ficar em forma. Usamos roupas que não nos convém, comemos comidas que detestamos, frequentamos lugares que nos enfadam e até o nosso linguajar é influenciado pela ditadura da moda, do que parece correto e adequado. E, às vezes, nesta nossa bela fase de mulheres de meia, estamos tão enterradas nesses condicionamentos que já não temos forças para acreditar que é possível mudar, que podemos resgatar a nós mesmas e exercer a liberdade de sermos pessoas únicas no mundo, com valores tão exclusivos quanto as nossas digitais.

Semana passada um amigo muito querido rompeu uma prisão feita de ouro e pedras preciosas. Como um pássaro cansado de cantar dentro de uma gaiola, comendo do melhor alpiste e sendo muito admirado, mas sem poder fazer a única coisa para a qual nasceu um pássaro: voar, ele simplesmente abriu a porta e saiu. Não sei o que acontecerá com ele depois de mais de quarenta anos servindo a uma ideologia que assimilou como sua e para a qual e pela qual deu a vida. Pássaros criados em gaiolas podem ter dificuldade para voar, encontrar alimento e quase sempre se expõem aos predadores. A liberdade pode ser – e via de regra é – muito solitária e dolorida, mas, assim como uma gaiola, ainda que feita de ouro, será sempre uma prisão, soltar as amarras, tirar as algemas e andar com os próprios pés será sempre liberdade. A esse amigo dedico este artigo e desejo que ele aproveite da melhor forma possível o tempo que lhe resta como um homem livre. “Parabéns pela coragem, que o céu não seja o seu limite, mas o seu infinito e o seu rumo final.”



quarta-feira, 19 de novembro de 2014

A dieta ideal




“Se eu pudesse novamente viver a minha vida, na próxima trataria de cometer mais erros. Não tentaria ser tão perfeito, relaxaria mais, seria mais tolo do que tenho sido. Seria menos higiênico. Correria mais riscos.[...] Tomaria mais sorvetes e menos lentilha, teria mais problemas reais e menos problemas imaginários.” (Autoria desconhecida)


            Esta semana minha irmã foi a uma nutricionista. Saiu da consulta muito satisfeita e em seguida recebeu um e-mail com uma grande quantidade de informações sobre alimentação, combinações calóricas e protéicas e exercícios físicos. Segundo essas instruções, ela deve emagrecer 26 quilos para atingir o peso ideal e seguir uma dieta rigorosa que inclui até os horários para tomar água. Também veio junto uma tabela de exercícios físicos e a quantidade de calorias que se perde por tipo de exercício. Acredito, de verdade, que a orientação de um profissional da área de nutrição pode ser um poderoso auxílio na reeducação alimentar e de hábitos, porém...

            Porém, não podemos esquecer que cada pessoa é única e não apenas um exemplar de um determinado biótipo. Minha irmã é mais velha que eu e, desde que me entendo por gente, ela é gordinha. Seu peso, ao longo dos anos, alternou um pouco para mais, um pouco para menos, mas, toda a constituição física dela é de uma pessoa mais cheinha e ela sempre foi linda sendo como é. Minha mãe também era assim. Eu sou a mais magra da família, mas também tenho uma constituição óssea grande e, se ficar no peso considerado ideal para a minha altura, serei um esqueleto. Somos pessoas grandes, de ossos grandes, meu filho é assim, o filho e a neta da minha irmã são assim. Lembro que minha mãe costumava brincar dizendo que não queria emagrecer porque as velhas gordas são mais bonitas.

            Se a minha irmã emagrecer os 26 quilos preditos pela tabelinha feita por um programa de computador, ela deixará de ser a pessoa que é. Uma coisa é você se alimentar direito, evitar alimentos que possam ser prejudiciais à saúde, tomar bastante água e fazer exercícios que o façam se sentir bem. Outra coisa é você se forçar a perder peso a qualquer custo para caber num padrão, tomar água em horários determinados e fazer exercícios para os quais seu corpo nem tem condições, sobretudo no caso dela, que tem próteses nos dois lados do quadril, o que o programa de computador não levou em consideração, pois ele existe para preparar dietas e condicionamento físicos para biótipos e não para pessoas.

            Às vezes eu me pergunto por que é tão difícil nos aceitarmos. Se passamos por uma banca de revista, metade delas fala sobre dietas, a outra metade sobre novelas... e dietas. Aos 13 anos eu já tinha a altura que tenho hoje, 1,75m. Isso, numa menina de 13 anos é bem complicado, tanto é que acabei adquirindo um vício postural que carrego até hoje: por mais que me esforce, ando meio curvada, consequência de ser mais alta que todos à minha volta e tentar ficar na altura das pessoas. Já que meus amigos não cresciam, eu me abaixava. Esses dias meu primeiro namorado perguntou sobre mim à uma velha amiga e ela me contou que ele falou num tom ressentido que fui eu quem terminou o namoro, coisa que já não faz sentido trinta e poucos anos depois, mas, me pus a pensar, procurando os motivos de ter terminado com meu namoradinho corintiano  e cheguei à conclusão de que um dos motivos foi o fato de ele ser menor que eu, tanto que tinha e ainda tem um apelido que termina com “inho”.

            Somos muito exigentes com nós mesmos no tocante à aparência, preocupados com o que os outros admiram ou desprezam em nós. Pura tolice, sobretudo quando chegamos nesta fase da vida, a meia idade, que reavalia e readequa todos os nossos valores. Não importa como parecemos, mas, sim, como somos. Vi uma entrevista com a atriz Rosa Maria Murtinho, que está na casa dos setenta, e ela disse que a única coisa que a entristece no envelhecer é saber-se mais próxima da morte. Bem, pode cair um avião na nossa cabeça, como aconteceu esta semana com o avião do presidenciável Eduardo Campos, mas, tirando esses riscos imprevistos, cada dia vivido é um dia de experiência a mais e um dia de vida a menos. Então, o ideal é usarmos essa experiência para adquirir uma qualidade de vida cada vez melhor, tomando água quando temos sede e comendo o que nos dá prazer e não põe a nossa saúde em risco.

            Como diz o poema da abertura, se pudéssemos viver nossas vidas novamente, seria melhor tomar mais sorvete e menos lentilha. Eu diria que não precisamos viver a vida novamente, mas, vivê-la ainda, plenamente, consultando um nutricionista quando necessário, mas, sem deixar que as prescrições dele ditem a nossa vida e a encaixe num padrão ideal, porque o ideal é ser feliz.


terça-feira, 18 de novembro de 2014

Piloto Automático



            Numa tarde fria da semana passada, eu estava voltando de carro de São Paulo para Atibaia, um caminho que faço diariamente há anos, quando, de repente, me deparei com uma espécie de obelisco reclinado, enorme, num canteiro bem no meio da pista. Era de um azul bem forte, escrito em vermelho “Cidade de Guarulhos”. Puxa, pensei, passo aqui todos os dias e nunca vi esse monumento... Ô, ô, ô, passei aqui ontem, ele não foi colocado aí de ontem pra hoje.! Se liga, Isa, você errou o caminho! Bem, não dava pra tentar raciocinar que m... eu tinha feito. A alternativa foi parar no próximo posto, que não era tão próximo assim, e me informar sobre como retornar para a Fernão Dias.
O frentista, muito simpático, me indicou pegar a segunda à direita e depois a primeira à direita para sair na pista contrária. Acontece que entre o posto e a primeira saída tinha uma ruazinha, que contei e acabei entrando na primeira saída achando que fosse a segunda. Conclusão, caí numa pista que demorei um pouco a reconhecer como a Ayrton Senna. Fiquei sem saber onde estava e em que direção estava seguindo, sei que andei, andei, ou melhor, corri, corri, pois a velocidade ali é 120km/h e não chegava a lugar nenhum, me distanciando cada vez mais de minha rota. Até que vi uma placa marrom no alto da pista escrito “Bem vindo a São Paulo. Viva tudo isso!”. Claro, o inusitado da placa turística me fez rir, afinal, “Viva tudo isso!” soou naquele momento como uma deliciosa ironia.

Algumas voltas e curvas depois, estava novamente na minha velha e conhecida Fernão Dias, dirigindo atentamente rumo ao meu lar, doce lar. Por que aconteceu isso? Eu estava dirigindo normalmente, ultrapassando, freando, dando vantagem, trocando marchas, mas, só o meu corpo estava presente nessa ação, pois a minha atenção estava em outro lugar, estava ligado o meu piloto automático. Eu via as lanternas do carro à minha frente, mas, na verdade, o que via nelas era o que estava dentro de mim; naquele momento eu estava à beira da lareira, tomando uma taça de vinho em companhia de uma pessoa querida e o vermelho da lanterna do carro à frente fora substituído pelo reflexo do brilho das labaredas dentro dos olhos que me encantam. É assim que muitos motoristas chegam rapidamente ao céu ou às mãos da equipe de resgate! Distração, mera distração, mas uma distração que pode custar uma ou mais vidas.

Como todo artista, a minha capacidade de abstração é muito grande e normalmente a minha atenção e o meu pensamento não estão onde está o meu corpo. Eu posso estar falando com alguém, respondendo perguntas, executando alguma tarefa no trabalho, faxinando a casa (o que é sempre uma tortura, pois eu começo mil coisas ao mesmo tempo, esquecendo a anterior e fico andando de um cômodo a outro feito barata tonta até dar conta de organizar tudo), sem estar de fato naquele lugar. Por me conhecer tão bem e saber que a minha atividade mental é muito intensa e o meu processo criativo é um fluxo contínuo, mantenho tudo muito organizado ao meu redor. Na minha casa ou na minha mesa de trabalho, as coisas estão sempre impecavelmente em ordem e raramente mudo alguma coisa de lugar porque eu preciso facilitar a vida sabendo o que está onde, senão me perco toda.

Isso acontece só com pessoas que têm sensibilidade artística? Penso que não. Mesmo que com menos intensidade, esse tipo de devaneio pode acometer qualquer pessoa, a diferença é o que fazemos com isso e se não deixamos isso nos prejudicar ao ponto de não prestarmos atenção a coisas essenciais e sermos desrespeitosos com outras pessoas, do tipo que costuma estar presente onde está e pode se ofender com nossas “ausências”.

Mas, é fantástico esse poder ilimitado que todos nós temos de abstrair e entrar num mundo criado por nossas mentes, mesmo que na maioria do tempo tentemos limitá-las com muros criados pelos conceitos que nos são introjetados desde a infância, preconceitos impostos, valores alheios, dogmas, leis, crendices, verdades tidas como absolutas, quando nem são absolutas e nem mesmo são verdades. Algemas criadas para tentar conter o vento, aquilo que não pode ser contido e nem aprisionado: o poder da imaginação.


É claro que, quando estamos dirigindo um automóvel, devemos por freios a esse poder, mas, aceitá-lo como uma dádiva é a forma mais perfeita de conquistarmos a liberdade. É esse poder que constrói e destrói o mundo e cabe a cada um de nós escolher o rumo que devemos dar à nossa imaginação, que tem força de vida e de morte. Tanto é assim que o nosso Mestre nos alertou que, ao olhar para uma pessoa com cobiça, já cometemos adultério. Ele sabia de tudo e conhecia as feras e os anjos que habitam dentro de nós, afinal é o poder da imaginação o que move o mundo.

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Uma questão de fé



“O rústico, porque é ignorante, ao olhar para o alto, vê que o céu é azul; mas o filósofo, porque é sábio e distingue o verdadeiro do aparente, ao olhar na mesma direção sabe que aquilo que parece azul nem é azul, nem é céu.” (Pe Antonio Vieira)




            À época da Inquisição, a Igreja condenou como heréticas as teorias de Nicolau Copérnico, defendidas e divulgadas pelo físico e matemático Galileu Galilei, de que a Terra não é o centro do Universo e que é ela que gira em torno do Sol, e não o contrário, como se acreditava até então. A defesa dessa tese, conhecida como Heliocentrismo, entre outras, rendeu a Galilei a condenação a uma espécie de exílio, sorte melhor que a de Giordano Bruno, que foi queimado vivo alguns anos antes, por defender ideias semelhantes. Enfim, descobriu-se que os astros não eram meros enfeites fixados à abóbada celeste, que a Terra não era plana e que os “limites” do Universo não existem.
            Hoje sabemos o que isso causou. E, como contra fatos não há argumentos, fomos obrigados a reconhecer a possibilidade de infinito e que Deus não é o velhinho de barba longa que imaginávamos, sentado em seu trono, certamente posto bem no alto da abóbada, cuidando de julgar justos e injustos, promovendo uns às beatitudes do Céu e condenando outros aos tormentos eternos do Inferno. Foi necessário que o homem começasse a entender que ele foi feito à imagem e semelhança de Deus e não que Deus tenha sido feito à imagem e semelhança de sua ignorância e limitação.
            A Igreja foi obrigada a reconhecer seu erro, embora o tenha feito um pouco tardiamente, quando o Papa João Paulo II, em 2005, alguns séculos depois do equívoco, retratou-se com Galilei e se desculpou publicamente pelos erros e desmandos da Inquisição. Talvez seja isso que ainda mantenha coesa e forte uma das instituições mais poderosas do planeta, capaz de sobreviver a si mesma e aos enganos dos homens que a compõem: a força de errar e a coragem de admitir o erro, ainda que atemporalmente.
É fácil para nós, homens assentados na ciência e apoiados na viga oca do ateísmo, condenar uma Igreja que comete erro tão medonho. Mas, e se estivéssemos lá, se fôssemos o homem rústico da época, como encararíamos a desmitificação da crença da Terra como centro do Universo, Céu acima para os bons e Inferno abaixo para os maus? Por bem menos que isso matamos, morremos, fazemos guerras. Será que se tivéssemos o poder para isso, na época, nós mesmos não teríamos apedrejado os “hereges”, como hoje linchamos alguns marginais? Afinal, o que mais merece quem ousa por abaixo as crenças que sustentam nosso orgulho, nossos medos e nos consolam?
            Minhas palavras hoje podem estar parecendo palavras de um ateu, mas, não é isso. Do que estou tratando hoje é a maneira tosca e tola como nos limitamos e nos deixamos levar por opiniões tidas como certas e absolutas. Na noite de domingo, conversando com um professor de Física, ao dizer-lhe do meu fascínio pelo pôr-do-sol, ele me deu uma explicação científica fria e absoluta sobre os horrores, as explosões e o caos que constituem a nossa estrela mãe. Embora ele brincasse, foi algo como, bem no meio de um jantar, alguém se levantar para explicar detalhadamente todo o processo digestivo pelo qual passarão os saborosos alimentos com os quais estamos nos deliciando.
O que é mais fascinante é que, embora tenham aberto os nossos olhos e permitido imensa evolução no conhecimento, nem Copérnico, nem Galilei, nem qualquer outro homem de ciência abalaram a essência da fé. Ao contrário, tirando o homem do centro do Universo (embora alguns ainda não tenham se dado conta disso) e deixando sem espaço o Paraíso dos beatos e o Inferno dos condenados, eles nos deram a liberdade de comungar verdadeiramente com o “Reino dos Céus”, cuja substância ainda é absolutamente desconhecida aos nossos sentidos grosseiros, mas da qual podemos ter um suave vislumbre parando ao fim da tarde para observar o pôr-do-sol, cuja magia nenhuma definição astrofísica jamais será capaz de destruir,

Embora pareça o contrário, devido ao assumido ateísmo de uma parcela dos cientistas, a Ciência, livre dos conceitos dogmáticos comuns às religiões, talvez seja a coisa mais divina que exista dentro desse abismo que separa Criador e criaturas; no entanto, é a fé que nos faz sobreviver e sublimar ao ponto de nos encantarmos e extasiarmos à vista de um simples pôr-do-sol. Ainda que aquilo que nos parece Céu sequer seja azul, religiosos ou cientistas, sábios ou ignorantes, é a fé que nos move, nos norteia e nos leva a sondar o insondável e a contemplar, nas mais diversas nuances, a face do Grande Autor. A questão é que somos muito lentos em compreender.

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Coisas de homem, coisas de mulher


Semana passada, enquanto carpia o local destinado à minha horta, tomado pelo mato, deparei-me com uma pequena jararaca e, num impulso, a fiz em quatro pedaços com a minha enxada já meio cega. O susto foi tamanho que passei a imaginar cobras em todos os recantos da chácara e, na manhã seguinte, amanheci doente. Apesar de morar num lugar em que há alguns bichinhos peçonhentos pela vizinhança, eu tenho verdadeiro pânico de cobras – tudo tem seu preço!

 Esta é a minha última semana de férias e eu passei a maior parte delas trabalhando em casa. Fiz uma escada de alvenaria, um pequeno muro, carpi, podei, mudei coisas de lugar. Depois do susto com a venenosa cobrinha e muito cansada com essas atividades todas, tive um momento de autopiedade: “Coitadinha de mim, sozinha aqui, sem ter quem me ajude, levando balão do pedreiro, tendo vários objetos roubados pelo ajudante dele; ninguém me ama, ninguém cuida de mim...” Esse estado de espírito meio derrotista não me é habitual, mas, não sou de ferro, sou apenas uma mulher de meia idade, com todas as alegrias e as dificuldades inerentes a isso.

 Acabei escrevendo um e-mail choroso para o meu filho, habituado a ouvir todo tipo de lamentação de suas ovelhas, e ele me ligou em resposta. Achei que ele fosse me mimar, passar a mão na cabeça da pobre mãezinha carente e solitária, mas ele, como bom filho e bom padre que é, me deu foi a maior dura! “Onde já se viu, a senhora, em vez de descansar, de passear, passa as férias inteiras em trabalho pesado, carpindo mato, matando cobra! Mãe, isso são coisas de homem, a senhora precisa entender que é uma mulher! Tem de fazer coisas de mulher!”

Conversamos sobre muitas coisas, mas, essa frase “coisas de homem, coisas de mulher”, ficou martelando na minha cabeça e eu me perguntei se, nos tempos atuais, com tudo meio virado de cabeça pra baixo, ainda há coisas de homem e coisas de mulher. O mundo ideal talvez fosse aquele em que as mulheres pudessem ficar em casa, cuidando do lar, doce lar, educando carinhosamente os filhos, lendo um romance, bordando ou tomando chá com as amigas no final da tarde, enquanto os maridos, como bons provedores, trabalhassem e não deixassem faltar nada para as rainhas de seus lares e para suas proles. Mas, ah, como estamos longe dessa utopia!

Uma mulher que vive só, como eu e como tantas, nessa faixa de idade ou até mais jovens, precisam aprender a fazer um pouco de tudo, a cuidarem dos filhos e de si mesmas, a proverem o próprio sustento e, quando necessário, trocar a resistência do chuveiro, o reparo da torneira da pia, o pneu co carro, o botijão de gás e – por que não? – até fazer umas coisas de pedreiro de vez em quando. Assim como muitos homens, também sozinhos, precisam aprender a se virar e dar conta de muitas tarefas antes tidas como exclusivamente femininas.

 Embora às vezes a gente se desanime, se canse, se revolte, estamos mergulhados num caldo único e já não há coisas de homem e coisas de mulher. Isso, por um lado, cria certa confusão, gera alguns conflitos e deixa tudo meio incerto, meio nebuloso, mas, o importante é que, como sobreviventes em um mundo hostil que atravessa uma transição nunca antes experimentada, nos tornamos experts em fazer coisas de seres humanos. Isso nos torna mais solidários e vamos aprendendo a respeitar as diferenças, afinal, como diz a poesia musical de Gonzaguinha “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”, sejam mulheres fazendo “coisas de homem” ou homens fazendo “coisas de mulher”!


sábado, 7 de junho de 2014

Me perdoe é a pressa...

“Me perdoe a pressa, é a alma dos nossos negócios. Ah, não tem de quê, eu também só ando a cem.” (Chico Buarque)
 
Dia de trabalho - São Paulo


Eu viajo todos os dias de Atibaia, onde moro, para São Paulo, onde trabalho, e todos os dias, invariavelmente, a mesma situação se repete: quando o ônibus vai se aproximando do terminal rodoviário, as pessoas que estão sentadas atrás se levantam e entopem o corredor, impedindo que as pessoas que estão sentadas mais à frente se levantem e essas têm de esperar, pacientemente, que todo o povo do fundo saia primeiro. Penso que essas pessoas levam muito a sério o preceito evangélico de que os últimos serão os primeiros. É uma pressa, um desespero para descer antes que não dá para entender. É como se houvesse uma disputa, uma competição.

Logo depois é a vez das escadas rolantes, um artifício criado para a comodidade do homem, para facilitar a locomoção, mas que vivem cheias de pessoas que não têm paciência de deixar que a escada as conduza, precisam subir andando, às vezes correndo (não entendo porque não usam a escada fixa, já que gostam tanto de se exercitar!). E pobres daqueles que ficam parados, obstruindo o fluxo dos apressados! São esbarrões, empurrões e frases desaforadas. O Metrô até afixou avisos: ”Nas escadas rolantes, deixe a direita livre”. É a exceção que virou regra.

Isso sem falar da pressa dos transeuntes, que atravessam fora da faixa de pedestres e com o sinal aberto para os carros, ou dos motoristas, afoitos por ultrapassar a qualquer custo. Já vivi a situação de estar na rodovia a 120 km por hora e ser ultrapassada pela direita. Parece que o simples prazer de levar vantagem, estar na frente, estar sempre fazendo as coisas primeiro é que move as pessoas. Mas, pressa para quê? Para chegar aonde? O que a vantagem de alguns segundos de fato representa?

Vocês já notaram que há pessoas que parecem estar sempre cinco minutos atrasadas para alguma coisa? Pessoas sempre afobadas, meio desesperadas, que nem conseguem conversar direito, no máximo uma comunicação fática, como a da música do Chico Buarque: “Olá, como vai?/Eu vou indo e você tudo bem?/Eu vou indo buscar meu lugar no futuro e você?” Será pelo fato de o futuro ser inatingível que corremos tanto? Ou será para não prestarmos atenção às coisas verdadeiramente simples e importantes da vida?

A pressa nos impede de ver os entornos, de prestar atenção às pessoas e aos acontecimentos, de prestar atenção a nós mesmos e ao ritmo natural de nosso corpo, de nosso cérebro. Pode parecer lugar comum, mas as pessoas não param nem para comer. Fazer as refeições em família, então, parece algo totalmente fora de cogitação. Até as diversões são aceleradíssimas, sobretudo as eletrônicas. Mergulhamos no mundo virtual e passamos a viver numa realidade paralela, num mundo louco como o de Alice no País das Maravilhas. São “maravilhas” que nos tragam, nos sugam, nos levam a nos perdermos de nós mesmos. Só paramos quando adoecemos, quando perdemos uma pessoa querida, quando quebramos a cara por algum motivo.

Viver numa grande cidade, como São Paulo, sem dúvida nos acelera um pouco, pois se formos devagar demais, acabamos sendo atropelados pelas pessoas, pelos acontecimentos, pelos automóveis, pela vida. Mas, nós somos senhores dos nossos destinos, precisamos estabelecer um ritmo que respeite a nós mesmos e aos outros. Para fugir dessa louca engrenagem foi que procurei um lugar para viver que me proporcione a calma comum a cidades como a Monte Alto de outrora, um lugar onde eu posso seguir o ritmo da natureza.

 Ser homens e mulheres de meia nos permite ter um olhar mais focado, mais suave e mais lento sobre o que passa. Aliás, penso que o natural é que a vida passe por nós, naturalmente, suavemente e não que nós passemos por ela tão acelerada e atabalhoadamente, sem sequer prestar atenção a ela, a nós, aos outros companheiros de viagem. Sim, é uma viagem e uma viagem que precisa ser delicadamente apreciada, como um vinho antigo em boa companhia, lentamente, como algo único. E cada instante é único, cada minuto que desperdiçamos, correndo atrás do próprio rabo, sem ir para lugar nenhum, infelizmente, não volta mais. Por isso, mais que a música do Chico, me encanta a música de Renato Teixeira e Almir Sater: “Ando devagar porque já tive pressa.”, ainda bem que percebi isso antes de ser tarde demais. 



sexta-feira, 6 de junho de 2014

Apresentando..."Mulheres de Meia"!

Mulheres de Meia

            Há algum tempo, resolvi criar um blog com o título “Mulheres de meia”. Então, iniciei uma pesquisa informal, perguntando a diversas pessoas, ao que lhes remetia essa expressão. Bem, ouvi de tudo! Mulheres de pijama, indo dormir; mulheres com febre, de agasalho e meia; mulheres jogadoras de futebol e, a maioria: mulheres de meias finas. Apenas três pessoas responderam o que eu esperava.

            Bem, o que são, afinal, as tais Mulheres de Meia? Não são e nem poderiam ser mulheres calçando meias, como a maioria de meus pesquisados respondeu, pois, nesse caso, teríamos um grave erro de concordância: se “mulheres” está no plural, o complemento também devem estar, ou seja, mulheres calçam meias. Bem, então só resta o óbvio, que eu achei que todos matariam de primeira: mulheres de meia idade.

            Hoje vivemos de uma forma segmentada, com nichos bem definidos, seja na área do comércio, do marketing, da saúde, da educação. Temos as crianças, depois a geração teen, os adolescentes, o mais elástico dos períodos! Antes, desde que foi instituído o conceito de adolescência, essa fase ia dos 14 aos 19 anos, hoje vai dos 11, 12 até os 30, às vezes até um pouco mais... Depois vêm os adultos e pula-se para a terceira idade, artificialmente chamada de “melhor idade” (não concordo com esse termo, para mim, a melhor idade é a nossa idade, a idade que temos hoje, não importa qual seja ela). E nessa conceituação, perdem-se num limbo as pessoas de meia idade.

            Uma amiga muito querida, que carinhosamente chamo de Luíza Mel, por ser apicultora, me diz que não gosta da expressão “meia idade”, por lembrar algo “meia boca”, incompleto.  Eu discordo dela, considerando a meia idade como o ápice da vida, aquele momento em que se atinge o cume da montanha cuja escalada foi iniciada na infância, cujas trilhas foram definidas na adolescência e redefinidas na vida adulta (que para mim é sinônimo de juventude). Chegamos ao ápice, ao pico da montanha, e agora? Realizamos grande parte dos nossos sonhos ou desistimos deles na impossibilidade de realizá-los, ou por ver que eles não eram tão fundamentais quanto acreditávamos que fossem. Se tivemos filhos, geralmente eles já não estão conosco, e, muitas vezes, nem os nossos amores.

            Esta é uma fase em que, geralmente, salvo raras e felizes exceções, nos encontramos sós. Podemos estar realizadas profissionalmente – ou não, podemos ter coragem de dar uma guinada, mudar de profissão, tornar realidade aquilo que só fazíamos por hobby; podemos decidir por uma separação ou, se sozinhas, é a fase em que mais queremos encontrar um grande amor, um amor maduro, sem muitas das ilusões românticas que nutrimos no passado – ou talvez mais românticas do que nos permitirmos ser no passado. Essa é uma fase de cisão, de rupturas, de grandes decisões, de maturidade, de equilíbrio, de segurança, de coragem, embora possa ser também uma fase de tristeza, de luto, de dificuldade de superação das perdas inevitáveis e necessárias. É a fase em que, se calçamos 37, já não aceitamos que nos façam calçar 36, como diz uma música do Raul Seixas, onde ele afirma: “Dói, mas no dia seguinte eu machuco meu pé outra vez.”.

            Esta é uma fase em que decidimos escolher nossos próprios sapatos, aqueles que verdadeiramente se adéquam ao conforto dos nossos pés; já não aceitamos continuar machucando-os para agradar outras pessoas, para nos adaptarmos a convenções e normas que nos engessam. Esta é a época da liberdade, a época do tudo posso, mas nem tudo quero. A época madura que nos remete às sábias palavras do Apóstolo Paulo: “Tudo me é permitido, mas nem tudo me convém.”. Aos 15, 20, 30, queremos tudo e achamos que podemos tudo.  Na meia idade, que segundo os estudiosos, gira entre os 37 e a proximidade dos 60, nós podemos tudo, mas, já não queremos tudo. Sabemos selecionar, sabemos optar pelo melhor, pelo mais conveniente ao nosso estado de espírito, ao nosso eu, à nossa verdade.

            Como mulher, e como mulher de meia idade, às vésperas dos 50 anos, escolhi falar para minhas semelhantes. Não excluo os homens e creio que, se sábios, tentarão ao máximo conhecer o poder, a força e também a delicadeza, a sutileza e as fragilidades de uma “mulher de meia”. O assunto é muito abrangente e o universo é imenso, por isso optei por fazer um recorte, para falar daquilo que sei, daquilo que conheço, daquilo que experimento. Assim, este será um espaço para se falar, questionar, buscar respostas para as grandes questões dessa mulher em sua fase mais sublime e iluminada, que é a meia idade, quando ela pode já não estar com tudo em cima, ter algumas estrias, um pouco de celulite, rugas se anunciando, cabelos brancos se multiplicando embaixo das nuances da Biocolor ou da Loreal, mas ela tem algo de valor incalculável, um tesouro sem igual, ela tem, talvez pela primeira vez, a si mesma e o poder de escolha e de decisão. E só a ela compete decidir o que fazer no topo de sua vida.